Se se tratasse de exprimir com a maior brevidade possível, e com os riscos que toda simplificação acarreta, em que consiste o problema central da contabilidade financeira, a resposta seria: em medir o resultado de um período contábil (Rp) como diferença entre as receitas e as despesas produzidas em tal período (rp-dp).
Assim sendo, é o caso de perguntar: de que dependerá a obtenção de um mesmo resultado, quando dois contadores diferentes tratam de representar a história de uma mesma organização, durante um mesmo período de tempo?
Em outras palavras: de que fatores dependem os critérios de objetividade informativa da contabilidade financeira?
O tempo
A duração do período, cujo resultado contábil se trata de medir, é o primeiro fator de objetividade.
Estritamente falando, o resultado econômico de uma empresa não pode ser medido com exatidão até o fim de sua vida.
Calculando então a diferença existente entre os recursos fornecidos e os retirados da empresa, se medirá o resultado com a máxima objetividade.
Mas para alcançar um mínimo de utilidade, a contabilidade financeira vê-se obrigada a dividir a vida da empresa (que o princípio contábil da continuidade considera “praticamente indefinida”) em períodos de tempo artificialmente determinados: um mês, um semestre, um ano.
Não obstante, o resultado medido correspondente a um certo período terá tanto menos objetividade ou confiabilidade quanto menor for a duração do período em questão.
A medida do resultado contábil de um dia ou de um mês é menos objetiva do que a de um ano e está menos do que a de um quinquênio, por exemplo.
Ou seja, as opiniões pessoais dos contadores afetarão a medida de Rp em grau tanto maior quanto menor for a duração de p.
A independência entre períodos
O segundo fator é o grau de independência dos acontecimentos correspondentes ao período que se contempla com relação aos acontecimentos do período anterior ou posterior.
Por exemplo, as vendas a crédito realizadas hoje são vendas reais unicamente à medida que os clientes paguem depois sua dívida; tem maior grau de objetividade o resultado medido pela contabilidade de uma empresa que vende à vista do que o medido por uma segunda empresa que vendesse a crédito: se os dois contadores tratam de avaliar a inadimplência dos créditos concedidos a clientes e dependentes de cobrança em uma determinada data, é muito provável que cheguem a números diferentes (e, por conseguinte, a resultados contábeis diferentes), já que se trata de adivinhar o futuro.
Prescindindo-se dessa avaliação de inadimplência, a informação seria mais objetiva (os dois contadores encontrariam a mesma cifra de clientes), mas, em compensação, seria menos útil frente à gestão financeira da empresa.
O imobilizado
A importância dos ativos imobilizados aparece como o terceiro fator de objetividade.
Avaliar a parte do custo de um ativo imobilizado que deve ser considerado como gasto de um determinado período contábil (depreciação) é uma coisa muito difícil e sempre discutível, pois também acarreta estimativas de futuro.
É mais objetivo, por isso, o resultado medido pela contabilidade de uma empresa que não tem imobilizados do que o medido pelo de uma segunda empresa com um imobilizado importante.
Esta é uma das razões, especialmente se além disso estiver presente um elevado índice de inflação, de que se tenha dado uma importância crescente aos fundos gerados pelas operações (o resultado é igual aos fundos gerados pelas operações menos as depreciações).
Poder-se-ia dizer que a cifra do resultado é mais útil, mas menos objetiva, do que a cifra de recursos gerados pelas operações (cifra que prescinde das depreciações).
A inflação
Finalmente, intervém o grau de estabilidade da moeda.
O fato de que não se mantenha no tempo a mesma unidade monetária real deteriora a utilidade da contabilidade como instrumento de informação.
E se os dois contadores tratassem de melhorar a utilidade desta informação contábil levando em consideração as consequências da inflação, isto suporia uma deterioração da objetividade: as opiniões de ambos os contadores influirão na informação assim corrigida em um grau tanto maior quanto maior for o índice de inflação.
Conclusões
Em última análise, uma comparação detalhada dos documentos contábeis de duas empresas é difícil.
Não há dúvida de que podem ser feitas algumas comparações úteis, mas não passarão de aproximações.
Por esta razão é que se fala em “medir” o resultado, e não em “calcular” o resultado.
Uma cifra “calculada” parece indicar uma precisão que na contabilidade não se verifica, ao passo que uma cifra “medida” implica uma influência do instrumento de medida (neste caso, o sistema contábil) que se utilizou.
E por isso também se pode dizer, sem afastar-se excessivamente da verdade, que o resultado contábil de um período pode ajustar-se aquele que alguém desejar, dentro de limites relativamente amplos, cumprindo escrupulosamente todas as regras contábeis.
Em contabilidade, portanto, mais do que fazer uma coisa ou outra, importa saber o que se faz, ou o que fez uma terceira pessoa, no caso em que se queira examinar uma informação contábil por ela preparada.
E quanto mais presentes estiverem os quatro fatores de objetividade, mais importante será conhecer os critérios utilizados na preparação das demonstrações contábeis para formular um juízo sobre a situação financeira de uma organização.
Estas limitações devem ser levadas em consideração quando se trata de interpretar um conjunto de documentos contábeis.
Mas a realidade destas limitações não significa que se deva rejeitar a contabilidade como um instrumento eficaz para o conhecimento de uma empresa.
Depois de tudo, a contabilidade proporciona um procedimento para resumir uma numerosa série de acontecimentos complicados e heterogêneos.
Isto já é um notável êxito, embora o resumo assim conseguido não seja perfeito.
Para aperfeiçoar a informação contida nas demonstrações contábeis, acrescentam-se a elas notas explicativas que são parte integrante e inseparável das demonstrações.
Na compra da maquinaria necessária à produção, seu valor (o que se pagou por ela) é registrado no ativo. Com o passar do tempo, porém, deve-se ajudar esse valor de acordo com a depreciação, que se constitui em um dos fatores que influem na objetividade da informação contábil. |
Alternativas para o registro contábil do movimento de estoques Custos de produtos e despesas do período
A contabilidade admite três sistemas de avaliação dos estoques: PEPS,
UEPS e média.
No quadro a seguir, comparam-se as anotações contábeis, correspondentes aos três métodos, de onde se pode deduzir uma regra geral: se os preços aumentam (como é este caso, já que os artigos inicialmente comprados do fornecedor custaram 6 u.m. e os de fabricação própria 7 u.m.), o resultado contábil que mede o UEPS é menor do que o medido pelo PEPS, sendo o medido pela média, logicamente, um intermediário entre ambos.
Se os preços diminuíssem aconteceria o contrário.
E se se mantivessem estáveis, os três métodos mediriam um mesmo resultado.
Análogas considerações podem aplicar-se à avaliação dos artigos em estoque, que será diferente em cada método.
Neste caso de preços em alta, o PEPS avalia os estoques a um custo mais próximo (7 u.m. por unidade) ao de mercado, ao passo que o UEPS se afasta (6 u.m. por unidade) de tal preço de mercado.
Evidentemente, a diferença entre as avaliações dos estoques é igual à diferença entre os resultados:
350 – 300 = 910 – 860
Os FPO também são diferentes nos três métodos:
PEPS -> 10.800 – 6.150 – 3.100 = + 1.550 u.m.
UEPS -> 10.800 – 6.200 – 3.100 = + 1.500 u.m.
Média -> 10.800 – 6.158 – 3.100 = + 1.542 u.m.
Finalmente, existe a contabilidade padrão, que fixa alguns custos futuros a conseguir, e os compara, nas chamadas contas de varianças, com os custos reais.
Para medir o resultado é preciso decidir o que fazer com os saldos (que podem ser favoráveis ou desfavoráveis) dessas contas de varianças: se transladá-los para a conta de lucros e perdas, afetando portanto o resultado do exercício, ou deixá-los definitivamente incorporados às contas de estoques, não afetando portanto o resultado do exercício, ao adotar uma solução intermediária entre as anteriores.
A parte inferior do quadro mostra a conta de resultados e a avaliação de estoques, no caso em que se houvesse considerado a depreciação do equipamento como custo de produto, à razão de 0,5 u.m. por unidade, e que se podem comparar com as obtidas na parte superior do quadro.
A cifra de 0,5 u.m. baseia-se numa estimativa de futuro, a de que o maquinário, cujo custo foi de 1.200 u.m., vai fabricar 2.400 unidades; da mesma forma que na parte superior do quadro, em que a depreciação se considerava em função da passagem do tempo, avaliaram-se três anos, equivalentes a uma depreciação anual uniforme de 400 u.m.
Em nenhum dos casos há segurança de que as correspondentes estimativas se realizem.
Fixando a atenção na coluna PEPS, para comparar as hipóteses A e B, a diferença entre os dois resultados (935 – 910 = 25 u.m.), deve-se ao fato de que na hipótese B há uma parte da depreciação que permanece ativada em estoques; e, como era de se esperar, 50 unidades x 0,5 u.m. = 25 u.m.
O resultado medido pela hipótese B é maior, porque neste exemplo se fabricou um número de unidades, 800, superior ao das fabricadas e vendidas, 750.
A depreciação do equipamento, que diminui o resultado através do custo dos produtos vendidos, é apenas a correspondente destas 750 unidades (isto é, 750 x 0,5 = 375 u.m.), em lugar das 400 u.m. de depreciação da hipótese A.
Em vez disso, na coluna UEPS, os resultados coincidem, porque coincidem as unidades fabricadas, 800, e as fabricadas e vendidas, 800.
Finalmente, se fossem vendidas mais unidades do que as fabricadas (se os estoques tivessem sido reduzidos), a hipótese B teria chegado a um resultado inferior ao da hipótese A, pois a depreciação transferida para a conta de lucros e perdas, através do custo dos produtos vendidos, seria superior à de 400 u.m. anuais.
Para calcular os FPO, na hipótese B, é preciso identificar as depreciações registradas no custo de produtos vendidos, pois não representam nenhum fluxo de fundos.
Por exemplo, na coluna PEPS, os FPO resultam da seguinte operação:
10.800 – (6.525 – 375) – 3.100 = + 1.550 u.m.
Pela mesma razão, ao estudar os estoques (375 – 25 – 900 = 550 u.m.), deve-se prescindir das possíveis depreciações que neles se tenham contabilizado.
Em resumo, as demonstrações de origens e aplicações de recursos em ambos os casos são idênticas.

Leia mais em:
- Entenda a custódia dos recursos
- Como entender a contabilidade de uma empresa industrial
- Entenda as operações contábeis durante um ano qualquer
- Entenda a conta de resultados e o balanço
- Entenda a demonstração de origens e aplicações de recursos
Fonte: Fernando Pereira – Doutor em Engenharia de Estradas, professor de Controle no Instituto de Estúdios Superiores de la Empresa – IESE, de Barcelona. Ex-presidente da European Accounting Association.
