O ativo circulante e o passivo circulante (cuja diferença constitui o capital de giro) mostram os recursos que circulam na empresa com uma certa rapidez.

As parcelas circulantes distinguem-se do ativo imobilizado e dos recursos permanentes pelo fato de a direção ter que tomar decisões sobre elas com maior frequência.

E também pelo fato de que es­tas decisões, em geral, são mais facilmen­te retificáveis em caso de necessidade do que aquelas que afetam o ativo imobilizado ou os recursos permanentes, pois “comprometem” menos a empresa.

É mais fácil, por exemplo, retificar o volume dos créditos a curto prazo do que uma emissão de debêntures, uma vez que se te­nha realizado.

Os ativos circulantes medem-se de duas maneiras diferentes.

Um grupo de ativos constituídos pelo caixa (e as parcelas a ele assimiláveis) e pelas contas de clientes, se mede a preço de mercado.

Isso supõe que se pode realizar para a conta de clientes uma estimativa suficientemente precisa das inadimplências futuras.

Um segundo grupo constituído pelos estoques de algum outro tipo de lançamento (despesas pagas antecipadamente, por exemplo) mede-se de modo geral a preços de custo, embora isso não suponha que dois contadores diferentes cheguem necessariamente a cifras idênticas: depende da classificação que estabelece­rem entre custos de produto e despesas do período.

Quando se julga que os estoques avaliados a preço de custo chegariam a uma cifra superior à avaliação de preço de mercado, o critério conservador que caracteriza a contabilidade financeira levará a utilizar a segunda regra.

Os ativos imobilizados registram-se no momento de sua aquisição a preço de custo.

Os ativos imobilizados líquidos medem os custos dos imobilizados que ain­da não foram carregados às operações.

Normalmente, as quantidades correspondentes não têm relação alguma com os respectivos preços de mercado e é impossível obter este último valor baseando-se unicamente na informação fornecida pelo balanço.

As máquinas de uma indústria têxtil figuram no ativo, onde se registra o seu preço de custo, no momento da aquisição. Porém, se a empresa faz uma compra em prestações anuais, seu valor figurará também no passivo, como dívida contraída.

A inclusão de uma parcela no ativo circulante ou no ativo imobilizado é função, não daquilo que a coisa é, mas da intenção que a empresa persegue com sua pos­se.

Um pacote de ações de uma segunda empresa, por exemplo, será circulante, se obedecer a uma utilização temporal de um excesso de caixa; e será imobilizado, se obedecer ao desejo de estar presente de modo permanente.

Do mesmo modo, al­guns caminhões farão parte do imobilizado de uma empresa de transportes e do circulante de uma empresa de venda de material de transporte.

Na interpretação das parcelas do passivo exigível é preciso levar em consideração que aquelas não registram necessariamente todos os compromissos aos quais a companhia deve fazer frente.

Por exemplo, se a empresa compra uma máquina no valor de 4.000 u.m. e se compromete a pagá-la em quatro prestações anuais de 1.000 u.m., a máquina figura­rá no ativo do balanço e, no passivo, apa­recerá a dívida que a empresa contraiu.

Mas se a empresa toma emprestada esta máquina, comprometendo-se a pagar um aluguel de 1.000 u.m. anuais durante qua­tro anos, no balanço não aparecerá indi­cação alguma deste compromisso.

No ca­so de se desejar informar sobre sua existência, será necessário fazê-lo em uma nota.

A tradução em u.m. dos recursos de terceiros geralmente é mais exata do que as restantes parcelas do balanço (com exceção, naturalmente, do disponível).

A quantidade que aparece como devida aos diferentes credores é exatamente a quantidade que se lhes deve.

Mesmo quando é preciso fazer alguma estimativa, como a dos impostos a pagar, esta pode ser realizada normalmente com acuracidade.

Os recursos próprios

Os recursos próprios podem ser medidos com precisão: normalmente são os fornecidos pelos proprietários em forma de capital e de ágio na venda de ações.

Se tiver sido possível inventariar e traduzir em u.m. a totalidade dos ativos, de um lado, e a totalidade dos recursos de terceiros e dos recursos próprios fornecidos, de outro, a diferença entre ambos, complementada em seu caso com os dividendos distribuídos, será igual aos re­cursos ganhos (ou perdidos) pela empresa no desenvolvimento de suas atividades.

Estes recursos ganhos (ou perdidos) podem ser medidos também pela Demonstração de Resultados.

Desta forma, deve chegar-se a igualdade do ativo total, de um lado, e do passivo total, de outro.

A comprovação de que se cumpre esta igualdade garante, de certa forma, que os recursos de que a empresa dispõe, inventariados no passivo, estão sendo realmen­te utilizados, segundo o inventário semelhante refletido no ativo.

Esta função da contabilidade é a que com frequência se denomina custódia dos recursos e que se realiza quando “as contas batem”.

Em certas ocasiões, conseguir que as contas “batam” chega a converter-se numa obsessão que leva a esquecer os outros fins da contabilidade, podendo acontecer que, como as árvores às vezes não deixam ver a floresta, as contas não deixem ver a contabilidade.

Geralmente fornecidos pelo proprietário, na forma de capital e ágio na venda de ações, os recursos próprios de uma empresa podem ser medidos com precisão e, quando comparados a outras informações contábeis (totalidade de ativos, recursos de terceiros e dividendos distribuídos), refletem os recursos ganhos (ou perdidos) por uma empresa, podendo corresponder, como em uma fotografia, à imagem de um determinado momento do desenvolvimento de suas atividades.

O ciclo econômico da empresa, tal como mostra a figura, pode ser dividido em quatro fases essenciais: disponível, fornecedores, estoques e clientes.

Valor contábil e valor real de uma empresa

Uma realidade às vezes difícil de ser aceita na prática é o fato de o balanço servir muito pouco no momento de fazer a avaliação de uma empresa.

Isso é consequência dos procedimentos utilizados pela contabilidade financeira e descritos anteriormente.

Poderia então parecer muito mais razoável que o contador informasse sobre o valor dos ativos e não simplesmente sobre o que custaram.

Tal argumentação esqueceria a importância que tem a objetividade na elaboração da informação contábil para terceiros.

Sem dúvida, um balanço que mostrasse o valor real dos ativos seria mais útil para seu leitor do que um balanço baseado em custos, mas a realidade é que normalmente não há forma objetiva e prática de determinar os valores reais dos ativos, e quando existe, como no caso do disponível, o contador a utiliza.

Uma estimativa destas características só poderia ser feita pela direção, mas a contabilidade financeira tem como finalidade informar sobre a atuação desta mesma direção.

Por isso, baseá-la no juízo e nas estimativas da direção suporia fazer com que essa desempenhasse, ao mesmo tempo, papéis de juiz e parte, o que não parece razoável.

O contador registra a aquisição e o desaparecimento dos ativos em termos de custo, o que pode realizar com razoável objetividade: não pretendem adivinhar as flutuações de seus valores reais.

Talvez seja conveniente recordar que os coeficientes de reavaliação não pretendem de forma alguma que o balanço mostre o valor de uma empresa: apresentando um balanço elaborado na base de registrar uma grande parte do mesmo, buscam apenas exprimir os custos das diferentes parcelas em unidades monetárias de uma mesma data.

Por outro lado, a contabilidade geralmente parte da hipótese de que a empresa terá uma vida indefinida, e dado que os ativos imobilizados não estão para serem vendidos, não há razão para se esforçar em calcular o preço de mercado atual dos mesmos, como lembra o princípio da continuidade.

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Fonte: Fernando Pereira – Doutor em Engenharia de Estradas, professor de Controle no Instituto de Estúdios Superiores de la Empresa – IESE, de Barcelona. Ex-presidente da European Accounting Association.