O matemático italiano frei Luca Pacioli (1445-1517) é considerado o pai da contabilidade moderna por introduzir os lançamentos por partidas dobradas.

A contabilidade pode ser definida como o sistema que, mais ou me­nos elaborado, existe em toda empresa com o fim de registrar, classificar ou re­sumir acontecimentos passados ou futu­ros, que podem ser convertidos em uni­dades monetárias.

A contabilidade pode ser representada como um mecanismo que registra, classifica e resume as atividades econômicas que foram convertidas em unidades monetárias por meio dos princípios contábeis.

Considerada como fonte de informa­ção, há na contabilidade uma importan­te limitação que deve ser esclarecida logo de início: a contabilidade trata unicamen­te dos acontecimentos que podem ser con­vertidos em unidades monetárias.

E é evi­dente que estes podem não ser os eventos mais importantes a ocorrer dentro da em­presa.

Apesar desta limitação (que nun­ca pode ser esquecida), a teoria sugere e a experiência demonstra que é imprudente, na prática, não dar a devida atenção à informação contábil.

A conversão de acontecimentos em unidades monetárias realiza-se por meio do uso de um conjunto de regras deno­minadas, com frequência, de princípios contábeis geralmente aceitos, que são aperfeiçoados constantemente.

Emprega-se a expressão “geralmente aceitos” pa­ra indicar que a aplicação desses princí­pios nem sempre é adequada; nesses ca­sos, o contabilista deve explicar as razões que o levaram a abandonar o procedi­mento de uso geral.

A informação contábil desejável

Seria desejável que a informação con­tábil (ou, em termos mais técnicos, as situações contábeis) elaborada mediante a aplicação dos princípios mencionados fosse, simultaneamente, objetiva e útil.

A objetividade seria obtida se os prin­cípios contábeis fossem tais que, ao aplicá-los a uma mesma empresa, duas pessoas elaborassem situações contábeis idênticas, independentemente de suas opi­niões individuais ou subjetivas.

A utilidade seria alcançada se os prin­cípios contábeis fossem tais que, ao aplicá-los, as situações contábeis assim elaboradas representassem uma ajuda efi­caz a seu usuário para decidir o que fa­zer.

Por exemplo: emprestar ou não di­nheiro a essa organização; determinar o preço de venda de um produto.

Na prática, objetividade e utilidade se contrapõem na maioria das ocasiões, ou seja, as situações contábeis, na realidade, representam um compromisso entre ob­jetividade e utilidade, dando maior ou menor ênfase a uma destas duas qualida­des desejáveis, conforme o caso.

Contabilidade financeira e contabilidade de direção

As situações contábeis podem destinar-se a informar o público externo, entendendo-se por tal as pessoas ou enti­dades interessadas nos rumos da empre­sa, mas que não são responsáveis por sua gestão: clientes, acionistas, governo, etc.

Nesses casos, é desejável que as demonstrações sejam mais objetivas, mesmo que em consequência disso se mostrem menos úteis.

As empresas que operam na Bolsa de Valores publicam em seus relatórios as demonstrações contábeis do último exercício transcorrido.

Entretanto, para al­guém que estivesse estudando a possibilidade de investir dinheiro em tal empre­sa, as demonstrações contábeis previstas para o exercício seguinte seriam mais úteis.

Mais úteis, porém menos confiáveis, pois sempre é mais fácil explicar o passado que prever o futuro.

Uma contabilidade destinada a informar o público externo centraliza-se, portanto, e como consequência de sua maior ênfase na objetividade, na explicação do passado.

Por essa razão geralmente recebe o no­me de contabilidade histórica ou conta­bilidade financeira.

A contabilidade também pode ser um instrumento eficaz para ajudar os responsáveis pela gestão de uma empresa a de­sempenhar melhor o seu trabalho.

Essas pessoas estão fundamentalmente interes­sadas no estudo das consequências futu­ras de suas decisões presentes.

Por isso, as demonstrações contábeis, que eventualmente empregam, são aquelas capa­zes de refletir o futuro representado em unidades monetárias.

As situações contábeis passadas são úteis apenas para ajudá-los na elaboração do que realmente lhes interessa: as previsões.

A previsão de entradas e saídas de caixa do próximo ano é, supostamente, menos objetiva que a situação de receitas e despesas do ano passado, já perfeitamente conhecida.

Como instrumento de gestão, porém, sua utilidade é muito maior.

Uma contabilidade a serviço da direção baseia-se, portanto, na estimativa do futuro, colocando maior ênfase na utilidade.

Ela recebe diferentes nomes: contabilidade de direção, de gestão, interna.

A contabilidade e os princípios contábeis

Uma consequência dos conceitos precedentes é que a contabilidade financeira admite muito menos exceções quanto aos princípios contábeis geralmente aceitos, do que a contabilidade de direção.

Os usuários externos assim o exigem.

Para serem interpretadas, as situações contábeis devem ser elaboradas de acordo com certas normas que, por sua vez, não po­dem ser escolhidas arbitrariamente por quem as elabora.

Já a contabilidade de direção permite maior liberdade com os princípios contá­beis.

Como são de uso exclusivamente in­terno, eles serão observados conforme funcionem ou não, como auxílio na ges­tão da organização.

Bastará que conhe­çam os responsáveis por essa gestão.

Em uma primeira abordagem, pode-se classificar a informação contábil em qua­tro grupos ou situações contábeis funda­mentais:

  • Balanço (ou demonstração da situação patrimonial).
  • Resultado (ou demonstração de resul­tados).
  • Demonstração de Origens e Aplicações de Recursos (ou quadro de financiamento).
  • Fluxo de Caixa (ou de entradas e saí­das).

No texto a seguir dispensaram-se as considerações fiscais.

Isso se deve ao fa­to de que a contabilidade possui sua pró­pria razão de ser: mesmo em um país sem qualquer regulamentação fiscal, as orga­nizações socioeconômicas continuariam utilizando sistemas contábeis.

Por outro lado, não há motivo para que as normas fiscais e os princípios contábeis sejam coincidentes, como de fato não o são.

Por isso, é preferível estudá-los consecutiva­mente, e não simultaneamente.

O conjun­to de normas fiscais somente tem utilida­de para o sistema contábil, quando se tra­ta de quantificar dados concretos: aqueles relacionados com os impostos.

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Fonte: Fernando Pereira – Doutor em Engenharia de Estradas, professor de Controle no Instituto de Estúdios Superiores de la Empresa – IESE, de Barcelona. Ex-presidente da European Accounting Association.